Portão Dourado da antiga Jerusalém sob céu azul, com suas pedras milenares, evocando a cidade sitiada pela Babilônia e o profeta Jeremias preso no pátio da guarda em Jeremias 38

Devocional

Jeremias 38: O Poço, as Cordas e o Etíope

3 min de leitura

Versículo-chave

Coloque esses trapos debaixo dos braços para servirem de almofada. Assim as cordas não cortarão suas axilas.

Jeremias 38:12 (ONBV)

Capítulo completo — Jeremias 38

Jeremias 38

ONBV

1Sefatias, filho de Matã, Gedalias, filho de Pasur, Jucal, filho de Selemias, e Pasur, filho de Malquias, ouviram tudo que Jeremias estava dizendo a todo o povo: 2“Assim diz o Senhor: ‘Quem ficar em Jerusalém morrerá pela espada, pela fome ou pela doença. Mas quem se render aos babilônios escapará com vida, mesmo perdendo tudo o que tem’. 3Assim diz o Senhor: ‘Sem a menor sombra de dúvida, Jerusalém será conquistada pelo exército do rei da Babilônia. Nabucodonosor tomará posse desta cidade’ ”.

4Então os quatro oficiais procuraram o rei e disseram: “Este homem deve morrer! As suas palavras vão deixar todos os nossos soldados e cidadãos completamente desanimados! Ninguém mais vai querer lutar para defender a cidade. Jeremias não tem boas intenções com o povo; ele quer ver a sua ruína”. 5O rei Zedequias concordou e disse: “Façam o que bem entenderem com ele. De qualquer maneira, eu não poderia impedir vocês”. 6Os oficiais foram à cela onde estava Jeremias. Tiraram o profeta de lá e o jogaram dentro de um poço vazio no pátio da guarda do palácio. Esse poço pertencia a Malquias, filho do rei. Eles baixaram Jeremias com cordas. No fundo do poço não havia água, mas uma grossa camada de lama, e Jeremias ficou atolado nela.

7Quando Ebede-Meleque, o etíope responsável pelas esposas e filhos do rei Zedequias, soube que Jeremias tinha sido jogado dentro do poço, 8correu até o portão de Benjamim, onde o rei estava julgando um caso, e lhe disse: 9“Ó rei, meu senhor”, disse ele, “seus oficiais fizeram uma coisa muito má, jogando Jeremias dentro do poço. Lá dentro ele vai morrer de fome, porque já não há pão na cidade”.

10Então o rei ordenou a Ebede-Meleque, o etíope: “Leve trinta homens sob as suas ordens e tire o profeta Jeremias de dentro do poço, antes que ele morra”. 11Ebede-Meleque escolheu os trinta homens. Chegando ao palácio, foi a um quarto onde se jogavam trapos e coisas velhas. Pegou uns pedaços de pano e, por meio de cordas, desceu-os a Jeremias no fundo do poço. 12Então Ebede-Meleque, o etíope, gritou para Jeremias: “Coloque esses trapos debaixo dos braços para servirem de almofada. Assim as cordas não cortarão suas axilas”. Jeremias fez conforme Ebede-Meleque sugeriu

13e foi puxado para cima, por meio de cordas. Depois que saiu do poço, Jeremias foi levado de volta para a prisão do palácio, junto ao alojamento dos guardas. 14Algum tempo depois, o rei Zedequias mandou buscar Jeremias, para encontrar-se com ele junto à terceira porta do templo do Senhor. Lá ele disse ao profeta: “Vou lhe fazer uma pergunta; quero que me responda apenas a verdade e não esconda coisa alguma!” 15Jeremias respondeu a Zedequias: “Se eu lhe disser a verdade, você não me matará? E, mesmo que eu lhe dê um bom conselho, você não me escutaria”.

16Então, em segredo, Zedequias jurou a Jeremias: “Juro pelo nome do Senhor, de quem recebemos a vida, que não o matarei. Também não o entregarei aos homens que tentam tirar a sua vida”. 17Então Jeremias disse a Zedequias: “Assim diz o Senhor Todo-poderoso, o Deus de Israel: ‘Se você se entregar imediatamente aos oficiais do rei da Babilônia, salvará sua vida, salvará Jerusalém da destruição e poderá viver com sua família, e esta cidade não será incendiada. 18Mas, se você não se render imediatamente, esta cidade será entregue nas mãos dos babilônios, eles a incendiarão, e você não conseguirá escapar dos soldados de Nabucodonosor’ ”.

19“Tenho medo de me render”, disse o rei a Jeremias, “ser entregue aos judeus que passaram para o lado dos babilônios, e eles me maltratarem”. 20Jeremias respondeu: “Basta você obedecer a estas ordens do Senhor, e nada de mal acontecerá. Você não será entregue aos inimigos e escapará com vida. 21Mas, se você teimar em não se render, é esta a profecia que o Senhor me autoriza a dar:

22Todas as suas mulheres serão entregues aos oficiais do rei da Babilônia! Elas lhe dirão: ‘Belos amigos você arranjou, esses egípcios! Quando a situação ficou ruim, eles nos abandonaram à nossa própria sorte!’ 23Todas as suas mulheres e todos os seus filhos serão levados como escravos para a Babilônia. Você não conseguirá escapar. Será preso pelo rei da Babilônia, e esta cidade de Jerusalém será destruída a fogo!” 24Quando terminou a conversa, Zedequias disse a Jeremias: “Não conte uma palavra desta conversa a pessoa alguma! Se alguém souber que estivemos conversando, você morrerá.

25Se algum oficial vier perguntar sobre o que conversamos e ameaçar tirar a sua vida se você não contar, 26diga que você apenas me pediu para não ser levado de volta à prisão da casa de Jônatas, porque você tem medo de morrer ali”. 27De fato, pouco tempo depois, os oficiais da cidade vieram interrogar Jeremias sobre a conversa entre ele e o rei. Ele disse exatamente o que Zedequias tinha mandado, e os oficiais partiram sem descobrir nada, deixando Jeremias em paz.

28E Jeremias continuou preso no pátio do palácio até o dia em que Jerusalém foi conquistada pelos exércitos da Babilônia.

Observação

Lama até os joelhos, escuridão e um buraco no pátio do palácio. É onde o profeta termina depois de dizer, em voz alta, o que Deus mandou: quem ficar em Jerusalém morre, quem se render à Babilônia vive (v. 2). Quatro oficiais ouvem o recado e o traduzem como traição, porque a mensagem vai desanimar os soldados (v. 4). Para eles, a verdade virou problema de moral da tropa.

O rei Zedequias responde com uma das frases mais tristes da Bíblia: “Façam o que bem entenderem com ele. De qualquer maneira, eu não poderia impedir vocês” (v. 5). Ele tem o trono, o exército e a autoridade, e entrega tudo isso em duas linhas. Os oficiais descem Jeremias por cordas até um poço sem água, onde o fundo é só lama (v. 6).

Quem sobe nessa história é um estrangeiro. Ebede-Meleque, etíope e funcionário do palácio, corre até o portão de Benjamim e interrompe o rei em pleno julgamento para dizer que os oficiais fizeram “uma coisa muito má” (v. 9). Ele não tem cargo para isso, nem aliados, nem garantia de que sai vivo. O rei cede, e Ebede-Meleque escolhe trinta homens.

O detalhe que me prende está no verso 11: ele vai a um quarto onde se jogavam trapos e coisas velhas e pega pedaços de pano. Antes de puxar, avisa Jeremias de que as cordas vão cortar as axilas e manda pôr os trapos por baixo (v. 12). Alguém pensou na dor do resgate antes de começar o resgate.

Depois da cena, o texto volta ao ritmo duro. Zedequias chama Jeremias em segredo e promete não matá-lo (v. 16). Jeremias repete a proposta de sempre, que se renda e viva, e o rei responde que tem medo (v. 19). O capítulo termina com Jeremias ainda preso no pátio, “até o dia em que Jerusalém foi conquistada” (v. 28).

Aplicação para Vida

Zedequias sabia o que fazer. Ouviu a palavra duas vezes, de boca de alguém que acabara de tirar da lama, e ainda assim ficou parado, com medo dos judeus que o iam maltratar (v. 19). A obediência que ele adiava tinha um preço visível, e a desobediência tinha um preço que só chegava depois. Conheço bem essa matemática torta.

Ebede-Meleque ensina o contrário. Ele não esperou ser a pessoa certa nem estar no lugar certo, e usou o que tinha: acesso ao rei, trinta homens e um quarto de trapos velhos. O socorro que ele deu cabia na rotina de um funcionário da casa real.

Isso muda o jeito de olhar para as coisas descartadas. Pano velho, favor pequeno, uma ligação, uma carona, uma frase dita na reunião quando todo mundo cala. Deus costuma amarrar o resgate de alguém nessas coisas, e quem as guarda como lixo perde a chance de ser a almofada na corda de outra pessoa.

E há um aviso na prisão que continua. Jeremias foi tirado do poço e voltou para o pátio da guarda, sem vitória nem reabilitação pública. Fazer a coisa certa nem sempre devolve o conforto. Às vezes devolve só o ar, e já é muito.

O poço de Malquias ainda existe em muita casa: a cabeça do colega que ninguém escuta, o amigo que parou de ser convidado. Hoje alguém no meu caminho está atolado na lama, e eu tenho trapos à mão.

Oração

Deus, eu me reconheço mais em Zedequias do que gostaria. Sei o que tu me pediste, já ouvi duas vezes, e continuo calculando o que os outros vão dizer. Tenho medo de gente pequena enquanto o teu nome está ali, inteiro, à minha frente.

Dá-me o olho de Ebede-Meleque para ver o poço antes que a corda desça. Que eu corra ao portão, mesmo sem convite, e fale, mesmo sem cargo. E que eu pense nas axilas de quem vai ser puxado, na dor do caminho de volta, no pano que alivia o corte.

Se um dia o poço for meu, manda alguém com um trapo velho. Eu não vou perguntar de onde veio. Amém.

Link copiado!
Receba notificações quando houver novo devocional