Vista aérea de uma estrada sinuosa atravessando uma floresta densa, imagem do caminho iluminado que Jó lembra em Jó 29

Devocional

Jó 29: A Saudade Que Esqueceu de Deus no Meio da Lista

4 min de leitura

Versículo-chave

Como tenho saudade do meu passado, do tempo em que Deus me protegia!

Jó 29:2 (ONBV)

Capítulo completo — Jó 29

Jó 29

ONBV

1E Jó continuou a sua defesa: 2“Como tenho saudade do meu passado, do tempo em que Deus me protegia! 3Que saudade do tempo em que Deus, com a sua luz, iluminava o meu caminho, e eu andava em segurança em meio às trevas!

4Que saudade do tempo em que eu era forte e cheio de saúde, quando Deus era meu amigo e abençoava minha família! 5Quem me dera voltar ao tempo em que o Todo-poderoso estava do meu lado e eu tinha a companhia alegre de meus filhos, 6o tempo em que os meus caminhos se embebiam em nata, o tempo em que eu era capaz de conseguir azeite de uma pedreira!

7“Naquele tempo eu tinha um lugar reservado entre os cidadãos influentes e dignos de respeito; 8quando os jovens me viam chegando, levantavam-se e abriam caminho; os velhos ficavam em pé, em sinal de respeito; 9até as autoridades deixavam de lado os assuntos importantes e se calavam quando eu chegava.

10Homens nobres e importantes paravam de falar e não diziam mais nada. 11Minhas palavras eram a alegria da cidade, e todos me conheciam como um homem honesto e justo, 12pois eu ajudava os pobres que estavam sendo explorados e os órfãos que não tinham alguém para lhes dar abrigo.

13Os que estavam à beira da morte me abençoavam; eu ajudei muitas viúvas a ficarem alegres novamente. 14Em todas as minhas ações eu procurava ser justo; fiz da justiça a minha roupa de todo dia. 15Eu servi de vista para os cegos e de pés para os aleijados.

16Eu era um pai para os necessitados e até os estranhos eu protegi e julguei com justiça. 17Eu quebrei os dentes afiados dos perversos e tirei as pobres vítimas da boca dos exploradores desonestos. 18“Então eu pensava: ‘Minha morte chegará tranquilamente, em casa, depois de uma vida longa, e bem vivida.

19Serei como uma árvore de raízes longas, que chegam até as águas; o orvalho cairá sobre mim, e meus ramos serão sempre verdes. 20Receberei muitas honras, e a minha força será sempre renovada’. 21“Quem me conhecia procurava sempre ouvir meus conselhos, e todos se calavam para me escutar.

22Quando havia alguma dúvida ou discussão, eu sempre tinha a última palavra, pois todos aceitavam minhas opiniões. 23Todos esperavam pelos meus conselhos como a terra seca espera pela chuva da primavera. 24Quando alguém estava triste e desanimado, o meu sorriso lhe devolvia a alegria e a disposição de viver.

25Para o meu povo eu era um guia que indicava o caminho, um rei que comandava os exércitos, um chefe que organizava e um amigo que consolava os que choram”.

Observação

Saudade de Deus ou saudade do que Deus deu? Jó abre o discurso sentindo as duas coisas ao mesmo tempo, e o capítulo mostra aos poucos qual delas pesa mais.

Os primeiros versos olham para Deus. Jó lembra do tempo em que Deus o protegia, em que a luz de Deus iluminava o caminho e o Todo-poderoso estava do seu lado. É uma saudade de presença e de amizade.

A partir do versículo 7, Deus some do texto. Do 7 ao 25 o nome dele não aparece mais, nem uma vez. Entra a cidade: jovens que se levantavam, velhos que ficavam em pé, autoridades que se calavam quando Jó chegava. Os verbos passam a ter Jó como sujeito, e ele conta que serviu “de vista para os cegos e de pés para os aleijados”.

O texto não desmente nada disso. Jó ajudava órfãos, alegrava viúvas, protegia estrangeiros, e ninguém no capítulo o acusa de mentir. O que chama a atenção é o fim da lista, no versículo 18, onde o bem feito vira plano: morrer em casa, depois de uma vida longa, com ramos sempre verdes. Jó tinha feito as contas de como a vida terminaria.

Aplicação para Vida

Existe uma saudade que se passa por piedade. A pessoa sente falta de um tempo em que as coisas funcionavam, com o emprego reconhecido, a saúde inteira, a casa cheia, e chama isso de falta de Deus porque foi naquela época que sentiu Deus por perto. Dá para viver anos nessa confusão sem notar.

Jó me ajuda a separar as duas. Me incomoda ver como é fácil a minha lembrança de Deus ser, na verdade, lembrança de como eu estava bem. O teste está no que a memória inclui. Se Deus aparece só nas primeiras frases e depois sobra a minha agenda, a fila de gente pedindo conselho, a minha vontade de ter a última palavra, a saudade tem endereço, e ele fica longe de Deus.

Isso não torna falso o bem que Jó fez. Sustentar quem não tem ninguém, dividir o que se tem, ser a pessoa a quem os outros recorrem: tudo continua certo, e quem cuida hoje de um pai doente ou segura as contas de alguém faz coisa do mesmo tamanho. A pergunta incômoda vem depois. O que sobra desse bem quando ninguém mais se cala para ouvir? Quem faz o bem esperando o respeito da cidade conhece o preço no dia em que a cidade muda de humor.

Pense em quem foi referência no trabalho e agora não é mais consultado. Pense em quem resolvia tudo na família e vê os filhos resolverem sem perguntar. Pense em quem perdeu cargo, força ou saúde. Em cada caso a dor é real, Jó não a disfarça, e Deus não pede que a gente disfarce. Mas a pergunta seguinte é de quem lê: o que eu quero de volta, o tempo com Deus ou o tempo em que eu era importante?

Essa pergunta cabe numa hora tranquila, antes da perda.

O último verso do capítulo guarda a melhor parte: Jó era “um amigo que consolava os que choram”. Isso não depende de cargo, de saúde nem de plateia. Quem consola não precisa de ninguém calado ouvindo, e pode continuar fazendo isso quando já não for o primeiro a ser procurado.

Oração

Senhor, eu também tenho saudade de épocas. Tenho dos dias em que tudo respondia ao primeiro toque, e confesso que nessa lembrança tu apareces pouco. Quero que apareças no começo, no meio e no fim do que eu recordo, como aparecias nos primeiros versos de Jó.

Se tiraste alguma coisa que eu sustentava com orgulho, mostra-me o que eu fazia por amor e o que fazia por aplauso. Deixa o primeiro comigo e leva o segundo sem que eu precise chorar duas vezes.

Guarda em mim o que o capítulo termina dizendo: consolar quem chora, mesmo quando ninguém esperar o meu conselho. Amém.

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