Devocional
Jó 20: O Banquete Que Vira Veneno
Densas trevas estarão à espera das suas riquezas; um incêndio que ninguém saberá explicar destruirá todos os tesouros que ele ajuntou em sua casa.
Jó 20:26 (ONBV)
Capítulo completo — Jó 20
Jó 20
ONBV
1Então Zofar, o naamatita, respondeu pela segunda vez: 2“Eu preciso dizer o que estou pensando imediatamente, porque estou profundamente perturbado. 3Ouvi com atenção sua resposta e suas acusações contra mim e por isso tenho de responder de acordo com a minha consciência.
4“Você não compreende que desde a antiguidade, desde que existe gente na terra, 5a alegria dos maus é passageira, e o riso dos pecadores rebeldes dura apenas um momento? 6Mesmo que ele seja cheio de si e orgulhoso, e a sua cabeça toque as nuvens,
7o perverso perecerá para sempre, como o seu próprio excremento. Seus conhecidos todos vão perguntar: ‘Onde ele foi parar?’ 8Ele passará depressa como um sonho, para nunca mais ser encontrado; desaparecerá como uma visão da noite. 9Os olhos que o viram não o verão mais; nem o seu lugar o verá outra vez.
10Seus filhos terão de fazer restituição aos pobres; ele próprio, com as suas mãos, terá de restituir a sua riqueza. 11Mesmo que ainda seja jovem e cheio de saúde, o perverso será castigado com a morte. 12“Para o perverso, a maldade tem um gosto doce em sua boca e ele o esconde sob a língua.
13Mesmo que ele goste de saborear as maldades como se fossem uma comida deliciosa, 14ainda assim essa comida deliciosa deixará um gosto amargo no seu estômago; e se transformará em veneno de serpente em seu interior. 15Ele vomitará as riquezas que engoliu; Deus fará seu estômago lançá-las fora.
16Ele toma veneno de cobra, um veneno terrível que acabará tirando a sua vida. 17Ele não aproveitará as coisas belas da vida, os rios correndo pelos campos, cobertos de mel, e de manteiga. 18O perverso não aproveitará o fruto de seu trabalho; seus lucros desonestos não trarão a menor alegria.
19Tudo isso porque explorou os pobres e os deixou desamparados; tomou à força as propriedades que não construiu. 20Por causa da sua cobiça sem limites, o perverso perdeu tudo que tanto desejou e sonhou conseguir. 21Ele nunca perdeu uma oportunidade de roubar para conseguir riquezas e por isso perderá toda a sua fortuna.
22Quando atingir o máximo da riqueza, a aflição o dominará; toda a força da miséria vai acabar com ele. 23Para alimento, Deus fará chover a sua ira sobre o perverso, até ele dizer: ‘Não aguento mais!’ 24Se ele escapar da arma de ferro, uma flecha com ponta de bronze o atravessará.
25Ele arranca a flecha cravada em suas costas, e a ponta sai brilhando do seu fígado. O ferimento é mortal, e o perverso é dominado pelo medo da morte! 26Densas trevas estarão à espera das suas riquezas; um incêndio que ninguém saberá explicar destruirá todos os tesouros que ele ajuntou em sua casa. 27Os céus revelarão o pecado do perverso, e a terra se levantará contra ele.
28Os bens da sua casa serão levados, arrastados pelas águas, no dia do castigo de Deus. 29Pois isto é o que acontece ao homem que se revolta contra Deus. Esse é o terrível destino que Deus reserva para ele”.
Observação
Quem fala aqui é o amigo que perdeu a paciência. Zofar admite logo no começo que está perturbado e que precisa responder imediatamente, sem esperar a raiva baixar. Ele ouviu Jó se queixar e entendeu cada palavra como uma acusação contra si.
O discurso inteiro é um único argumento, repetido com imagens cada vez mais fortes: a alegria do perverso dura um momento. Ele sobe até as nuvens e desaparece como um sonho. Saboreia a maldade como quem guarda um doce debaixo da língua, e o doce vira veneno de serpente no estômago (vv. 12-16). A comida que roubou, ele vomita.
A acusação concreta aparece no versículo 19: explorou os pobres, deixou-os desamparados e tomou casas que não construiu. Zofar tem uma teologia limpa e simétrica, em que o mal sempre se paga aqui, com juros e em público.
O livro, porém, não deixa essa simetria passar. Nos capítulos seguintes Jó responde que os perversos às vezes envelhecem em paz, e no fim Deus declara que Zofar e os outros dois não falaram com retidão a respeito dele. Há verdade no que Zofar diz sobre a cobiça. O erro está em usá-la como régua para medir o sofrimento de Jó.
Aplicação para Vida
Zofar acertou no diagnóstico geral e errou no paciente. Isso me serve de aviso: posso estar certo sobre um princípio e completamente errado ao aplicá-lo ao homem que sofre na minha frente.
O que sobra de útil no capítulo é o alerta sobre o gosto da cobiça. Lucro que passa por cima de gente, atalho que cobra o preço de outro, vantagem que só funciona se ninguém olhar de perto: tudo isso tem sabor doce na boca e peso de chumbo na consciência. Quem trabalha com dinheiro, contratos ou prazos conhece esse momento em que a conta fecha e o estômago não.
Também aprendo a desconfiar da minha pressa de responder. Zofar falou porque estava incomodado, e falou como quem defende a si mesmo. Antes de explicar o sofrimento de alguém com uma frase pronta, vale a pergunta: estou falando para ajudar ou para me sentir seguro num mundo em que as coisas fazem sentido?
Os versículos 26 a 28 falam de incêndio, de casa esvaziada, de águas que levam os bens. Imagens duras, e eu as leio hoje como convite a segurar menos o que acumulo e mais as pessoas que o acúmulo poderia ferir.
Oração
Deus, eu conheço o gosto que Zofar descreve. Já escondi debaixo da língua uma vantagem que não era minha e disse a mim mesmo que ninguém sairia machucado.
Tira de mim a pressa de ter razão. Quando alguém à minha frente estiver sofrendo, me dá a coragem de ficar calado ao lado dele, como os amigos de Jó fizeram nos primeiros sete dias, antes de abrirem a boca e estragarem tudo.
E quando eu tiver algo que não construí e não mereço, me lembra de quem o construiu. O que é teu, deixa passar por mim sem grudar. Amém.